De bucho Cheio


A vida no campo é dura
E tem caboclo que se aperreia
Plantando várias culturas
Até na terra seca se meia
Apesar do sofrimento
Carregando água no lombo de jumento
Mas vive de barriga cheia.

Repare em seu José
Dava duro no roçado
Enquanto isso sua mulher
Tinha lhe preparado
Um lanchinho saboroso
E mandou um menino tinhoso
Para ir dá o recado.

O menino avexou-se
Para ir chamar o pai
Na carreira esborrachou-se
Quase volta para trás
Sabendo que se fizesse birra
Leva uma boa piza em riba
Pra casa não voltou mais.

Levantou bateu a poeira
E deu de novo no pé
Chegou em toda carreira
Painho venha tomar café
Tem queijo com rapadura
Pra inteirar uma jaca dura
Venha ver como é que é.

Tem também milho assado
E um bolo de fubá
Vi na mesa coco ralado
Acho que foi pra o mungunzá
Cuida logo venha ver
Pois além do comer
Tem caldo de cana pra tomar.

Ave maria menino
Vamos lá ver é agora
Num sabe que nordestino
Pra comer não tem hora
Nesse roçado é um repuxo
Vamos é encher o bucho
Pela graça de nossa senhora.

De repente largou a enxada
E saiu como um furacão
Mas levou uma topada
Que quase arranca o dedão
Só de olhar deu pena
Como uma pedra tão pequena
Leva um homem grande ao chão?

O menino caiu na gaitada
Quase bola de rir
Painho tá com fome arretada
Que chegou até a cair
Levante vamos cuidar
Porque com fome que tá
Pode ate não resistir.

Levantou desajeitado
Fazendo uma careta
Olhou o dedo machucado
Na vista umas manchas pretas
Pra não provocar mal impressão
Nem influenciar na educação
Rasgou: Eita que dor gota porreta!

Saíram os dois abraçados
Nos meios dos carrapichos
Tomando agora cuidado
Com o dedo era um capricho
Mas só de pensar naquele comer raiz
Se achava muito mais feliz
Do que pinto revirando lixo.

Chegando em casa um banquete
Era mais uma refeição
A mulher num tamborete
Observava na ocasião
Os dois sem perceber
Sentaram para comer
E nem sequer lavaram as mãos.

Que tipo de pai é você
Dando mau exemplo ao filho?
Senta logo pra comer
Se agarrando com o milho
Se não lavar logo as mãos
Vou avisar a condição
Vai perder os sequilhos.

Sequilhos? Perco não
Cuida logo, faz assim
Dana os dedos no sabão
Se não vai ficar a ruim
Ela tá de venta virada
Melhor não dizer é nada
Se não sobra é pra mim.

Sentaram os dois desconfiado
Depois do puxão de orelha
Um pegou o queijo assado
Tava com a face vermelha
Agora vão sempre lembrar
Das mãos antes lavar
Se não cai até as telhas.

Comeram de se fartar
Chega o bucho ficou azul
Não aguentava nem falar
Mais quando viu um beiju
Duas vezes não pensou
Pegou ele e lambuzou
Com a graxa de peru.

Homem tu já comeu demais
É hora de trabalhar
Vá sem reparar pra trás
No almoço vou chamar
Quanto esse moleque sambudo
Tem que pensar no estudo
Vá a tarefa terminar.

Mulher, que bestagem é essa?
Deixe de seu alvoroço!
Parece que vai pagar promessa
Tirando água de poço
Eu sei que acabei de comer
Mas poderia dizer
O que vai ter no almoço?

Nossa senhora do livramento
Que o buraco não tapa não
Tu comeste feito um jumento
Melhor sustentar um leão
Ainda não satisfeito
Já vai enchendo o peito
Perguntando da próxima refeição?

Oxe! Deixe de sua agonia!
É que o trabalho é pesado
Eu preciso de energia
Pra da conta do recado
Deixe de seu aperreio
E vá dizendo sem rodeio
O que vai ter preparado.

Eu pensei numa buchada
Junto com baião de dois
Numa galinha acabidelada
Um feijão preto com arroz
Pra completar um picado
Toicinho na brasa queimado
Pra fechar: um cupim de boi.

Com essa agora me calo
Mas antes me diga da janta
Vai ter cabeça de galo
Antes de rezar pra santa
Se tiver cuscuz com leite e jabá
Vou comer de me fartar
Até ficar pela garganta.

Pensei de pegar um capão
Pra comer com macaxeira
Mas posso fazer um rubacão
Com uma galinha de capoeira
Se não fosse o seu vexame
Fazia batata ou inhame
Com um lombo de carneira.

Nossa senhora criatura
Benza Deus quanto comer
De onde vem tanta fartura
O que fizemos pra merecer
Pra ter tanta coisa na mesa
Só nos resta uma certeza
Que é a Deus agradecer.

Gratidão é importante
Pois tudo vem do Senhor
Ele é fonte incessante
E digna de nosso louvou
Nunca deixe de agradecer
Mas também de entender
Que tá colhendo o que plantou.


Marcos Santos

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