Quero ser poesia


Uma rima torta, desmantelada
Que não fascina ou emociona.
Não satisfaz nem decepciona,
E que foi pela métrica nocauteada;
Até pelo mote atropelada.
Vive sem graça, é vazia!
Não tem sonhos e nem alegria,
De encantar, ao menos um pateta; (tolo)
Eu não quero ser poeta,
Quero ser é poesia.          

Quero ser o pôr do sol,
Num céu azul cintilando.
Quero ser o amor vibrando
Por baixo do lençol.
A piaba na ponta do anzol,
Despertando em alguém euforia.
Quero ser é a simpatia,
De maneira sublime, mas discreta.
Eu não quero ser poeta,
Quero ser, é poesia.

Quero ser o sorriso da criança,
Irradiando o mais duro coração.
Quero ser o verso da canção,
Que motiva alguma esperança.
Quero ser a confiança,
De quem vive com a alma fria.
Quero ser a melodia,
Que bom sentimento desperta.
Eu não quero ser poeta,
Quero ser é poesia.

Quero ser a resistência,
Do sertanejo destemido;
Que mesmo pela seca oprimido,
Lida com tamanha sapiência.
Quero ser a coerência,
De quem usa a terra com sabedoria;
Em que sua única mercadoria,
É a coragem que lhes resta.
Eu não quero ser poeta,
Quero ser, é poesia.

Quero ser o aroma,
Da fina flor mais aromática.
Quero ser do amor a matemática,
Da qual só multiplica a soma.
Quero ser o diploma,
De quem se desafiou e desafia.
O acerto da profecia,
Que profetizou o profeta.
Eu não quero ser poeta,
Quero ser, é poesia.

Quero ser é o afeto,
Da mulher mais apaixonada;
E que se está desamparada,
Encara o mundo de peito aberto.
Quero ser é o concreto,
Na construção de sua magia;
Ser tua loucura que contagia,
Mas que a ninguém ela afeta.
Eu não quero ser poeta,
Quero ser, é poesia.

Quero ser como mel de abelha,
E poder adoçar tantas vidas.
Quero ser a cura de almas feridas.
Ser no fogo do coração a centelha.
Ser a brechinha em uma telha,
Anunciando o novo dia;
E despertar quem ainda dormia,
Para assim cumprir suas metas.
Eu não quero ser poeta,
Quero ser, é poesia.

Quero ser a sensibilidade,
Escancarada em um olhar.
A capacidade de ajudar,
E a semear felicidade.
Quero ser a ingenuidade.
Ser do fantasiador a fantasia.
Os motivos de quem alegre sorria,
Enquanto que com alguém flerta.
Eu não quero ser poeta,
Quero ser, é poesia.

Quero ser os dedos pontilhando,
Na viola de um cantador.
Ser a beleza de uma flor,
Numa praça graciosa enfeitando.
Um riacho com outro se encontrando,
Com águas que não se confundiria;
Desviando de padras com maestria,
Seguindo seu curso como um atleta.
Eu não quero ser poeta,
Quero ser, é poesia.

Quero ser as letras misturadas,
Em uma dança rítmica, sensual;
Sem ninguém entender qual a final,
A mensagem metafórica aplicada.
Palavras simples, contrariadas
Que não diz nada, nada diria;
Salvo o que sente ou sentiria
Em frases desajeitadas, incompletas.
Eu não quero ser poeta,
Quero ser, é poesia.

Marcos Santos


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